Os fãs cariocas do grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado terão uma razão para comemorar no dia 1 de dezembro. O grupo estará voltando para o Rio de Janeiro após um pequeno intervalo de pouco mais de dois meses, desta vez rumo ao palco do Circo Voador, ainda na promoção do seu terceiro álbum, Transfiguração. O disco é marcado pela retomada dos ritmos regionais típicos à banda, tanto como pela releitura da poesia dos cordelistas sertanejos, adaptada a formação da banda: um cantor performático que abusa sabiamente da teatralidade, um violão e percussões. As músicas, que conferem até ao tema corriqueiro de uma paixão um cunho messiânico, fenômeno remetente ao vasto folclore nordestino, têm seu poder intuído já a partir dos títulos, aos exemplos de Pedra e Bala (Os Sertões), Tempestade (ou A Dança dos Trovões), Sobre as Folhas (ou Barão nas Árvores), ou mesmo na música homônima do álbum, Transfiguração, onde versos simples, mas enigmáticos, sugerem a originalidade dos músicos nordestinos: “Volta, este mundo só precisa de você/ volta, outro homem nunca assim vai te chamar/ Não fique aí enterrada/ Vem para a rua”.
Nascido de um grupo de teatro de rua na cidade de Arcoverde, porta do sertão pernambucano, o Cordel do Fogo Encantado há muito flerta com o sincretismo cultural, tendo se criado tanto sob a influência de ritmos africanos e ibéricos, como também do rock e da música brasileira mais moderna. José Paes de Lira, ou simplesmente o Lirinha, encabeça o grupo com um carisma surpreendente, dando às canções a paixão de representá-las. Espera-se que os shows da turnê dêem ainda mais importância à teatralidade. O que já se conhece do Cordel é que seus espetáculos são marcados por uma iluminação bem trabalhada, pela performance do cantor, que grita e encena seus versos, e por uma verdadeira viagem: o clima a nos levar para o Nordeste composto por Lirinha. Uma Pernambuco vasta, mas original, onde a cultura de raiz se torna um fenômeno inédito, quando adornado com citações de autores tão variados, entre os quais estão Guimarães Rosa, Euclides da Cunha e até mesmo Nietzsche, como na faixa O Sinal ficou Verde (Além do Bem e do Mal), tudo se encaixando numa precisão estética e, contrariando o que possa parecer, nem um pouco forçado.
Os dois primeiros trabalhos nasceram dos espetáculos montados por Lirinha, Clayton Barros (violão) e seu grupo. Para o terceiro disco, eles mudaram este processo. “Fizemos o contrário dos trabalhos anteriores. Primeiro nos reunimos para compor as músicas e produzir o disco. Depois disso é que estamos elaborando o espetáculo, que desta vez não vai ser fechado. Vai ter as músicas do CD novo e passear pelos dois trabalhos anteriores”, disse Lirinha ao Diário de Pernambuco. O CD também inaugura mudanças na produção, agora nas mãos de Carlos Miranda, no currículo do qual estão grupos como Skank e Mundo livre s/a, e Gustavo Lenza, responsável por artistas como B Negão, que chegou a fazer uma participação em Transfiguração, cantando Pedra e Bela. A intelectualidade, inovação e ousadia dos pernambucanos estão para confirmar na turnê que o espaço que vêm conquistando vai se firmar de vez.

Pedro Chaves
2 Comentários até o momento
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eu sou lirinha.
Comentário por exu 28 Novembro 2006 @ 7:18 pmDesejo
Comentário por Meninu Azul 17 Janeiro 2007 @ 3:03 pmA pedra e a bala,
E a santa paz fora do jogo.